O “véu” medieval “dispersou-se ao vento”(?)

Enquanto não atualizo este blog com algum post detalhado, vou colocando mais de minhas anotações breves, pois meus amigos têm pedido que eu continue a postar. Hoje comento sobre uma pergunta com a qual me deparei há algum tempo sobre em que contexto Jacob Burckhardt teria dito que o “véu” medieval “dispersou-se ao vento” (esta teria sido a importância histórica da Itália, visto que ali pela primeira vez dispersou-se o “véu medieval”, bem como o italiano teria sido “o primogênito dentre os filhos da Europa atual”, assim como Petrarca “um dos primeiros homens inteiramente modernos”).

Burckhardt escreveu na Civilisation de la Renaissance en Italie que na Idade Média,

“as duas faces da consciência, a objetiva e a subjetiva, estavam, de certo modo, veladas: a vida intelectual assemelhava-se a um sonho. O véu que encobria os espíritos era um tecido de fé e de preconceitos, de ignorância e de ilusões: fazia com que o mundo e a história aparecessem sob cores estranhas; quanto ao homem, só se conhecia enquanto raça, povo, partido, corporação, família, ou sob qualquer outra forma geral e coletiva.”

Lucien Febvre, um ínclito medievalista, comenta em seu Michele et la Renassaince sobre o que escreveu Burckhardt afirmando que

“essa Idade Média infantil, estagnada, anônima e mergulhada nas cinzas, por assim dizer, cujos elementos humanos encontravam-se todos igualmente tratados, ei-la combinando bastante mal, não digo somente com as verossimilhanças, mas com os testemunhos, os da arte em particular, os que erguem até o céu as torres e as flechas das nossas catedrais, os que são multiplicados, quando passam os fiéis, pelas figuras, aquele verdadeiro povo de pedra que animava os portais, gritando bem alto que naquele tempo, como em todos os tempos, houve grandes artistas – ou seja, poderosas individualidades. Mas seria possível acreditar, por outro lado, que um São Francisco de Assis – só para tomá-lo dentre todo o exército tão prodigiosamente variado de santos medievais -, seria possível acreditar que um Frederico II ou mesmo os heróis do drama de Canossa, os de Anagni e de tantos outros dramas medievais, atrozes ou grandiosos; seria possível acreditar que um São Luís, ou que uma Joana D’Arc fossem, realmente, seres incolores, anônimos, as réplicas fabricadas em série de um mesmo tipo humano, o tipo medieval?”

Mas não foi somente Lucien Febvre quem contestou essas posições “modernas” sobre a Idada Média. A historiografia francesa fez um excelente trabalho nesse sentido de “resgate” do período medieval. Mas não somente ela, na Alemanha, como lembra Febvre, encontramos um Dietrich Schäfer a escrever em Weltgeschichte der Neuzeit que

“se houve uma época em que a personalidade individual se desenvolveu, tal época foi a Idade Média. E é justamente acerca da Renascença que se pode dizer que foi um enérgico esforço para pôr limites à individualidade da ação… Quem quer que olhe um pouco mais de perto percebe logo a infinita variedade dos fatos e das circunstâncias, e o grande número das personalidades fortes que souberam dar forma ao seu próprio meio.”

Considero este problema do Burckhardt completamente destituído de qualquer vínculo com a realidade, mas há é claro quem concilie a posição dele com a de outros historiadores. A questão é complexa, enfim.

Vale lembrar que quem atribuiu ao conceito de “Renascimento” o conteúdo com o qual o entendemos hoje, foi Jules Michelet, um historiador romântico do século XIX. E por razões não exatamente “intelectuais”. Diz-se que foi por razões sentimentais. E quem o diz é o próprio Michelet numa nota em seu curso de 1840 sobre a Renascença. O que o teria feito empreender aquele curso foi, por um lado, o desespero a morte que lhe havia causado a perda de sua primeira mulher, Pauline Rousseau, e por outro, a esperança e a “renascença” que provocou nele o encontro de uma mãe de suas ouvintes no Collège de France, uma tal Dusmenil.  (10/jul/2010)

Ah, quer dizer que o “Renascimento” foi dele?, poderia alguém perguntar.

Oui, mon cher ami!, seria minha resposta.

Esse drama de consciência que o provocou a morte da sua mulher, fez com que a “Renascença” de Michelet fosse a do “coração”, contudo, se pôde criar tal noção de Renascença, sublinha Febvre, foi porque “antes de criar a sua renascença, ele teve de criar a nossa História”. Deve-se lembrar que Michelet matou a Idade Média para entregar-se à sua Renascença, mas que ele mesmo escreveu um dia que “ressuscitar, nascer ou renascer é, creio eu, a mesma coisa”. Ele teve relações muito controversas com o período medieval. Em algum outro post eu comento sobre isso.

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3 respostas para O “véu” medieval “dispersou-se ao vento”(?)

  1. Captare disse:

    Caríssimo Luiz, Laudetur Dominus!

    Concordo com seus amigos: você deve postar mais. Mesmo estas breves anotações são muito enriquecedoras.

    De uns tempos pra cá eu me convenci de que a verdadeira culpa por esta visão distorcida que se tem hoje do Medievo se devia principalmente à propaganda iluminista. Este texto coloca a culpa em entusiastas do renascimento. Você poderia me explicar exatamente, mas resumidamente, que papel tiveram um e outro movimento nesta “reinvenção da história”?

    Pax et Salutis

    • Luiz F. Alves disse:

      Grande Diogo!

      Olha, não sei dizer exatamente a dimensão da influência de uns e de outros. A gente sabe que essas visões equivocadas do período medieval não são exclusividade deles, isso vem desde o Trecento por aí, quando Petrarca se referia ao período anterior como de tenebrae. Nos séculos que se seguiram surgiram outras expressões como media tempestas, media aetas, media antiquitas, media tempora, medium aevum, etc.

      Michelet era um historiador romântico, por assim dizer, e os românticos até tinham lá um certo saudosismo da Idade Média, consideravam-na como um período esplêndido, que precisava ser revivido, etc. O séc. XIX nutriu uma paixão impressionante pelo medievo. Mas, bem, quando escrevi que o Michelet tinha uma relação controversa com o período medieval, é porque ele frequentemente mudava de ânimo em relação a ele. É dele, por exemplo, a frase que diz que a Idade Média foi “aquilo que amamos, aquilo que nos amamentou quando pequenos, aquilo que foi nosso pai e nossa mãe, aquilo que nos cantava tão docemente no berço”. Isso precisaria de um capítulo todo à parte, e quem sabe eu escreva mais em outro post.

      Abraço!

      • Marcos Dias disse:

        Ainda que citado o historiador romantico, é preciso uma certa cautela, visto que mesmos os romântico cometeram erros quando falavam da Idade Média, na verdade eles viam este tempo mais com um modelo a ser superado apesar de sua idealização.

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