Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) – The Ecstasy of St. Theresa
O Homem Medieval à Procura de Deus
Formas e conteúdo da experiência religiosa
André Vauchez
4. Nas origens da mística ocidental
Entre a via teológica e a via mística, existe uma outra divergência profunda: o objeto da segunda não é arrancar os segredos de Deus, mas permitir à alma experimentar a sua presença e unir-se a Ele. O texto bíblico, que continua a ser, para os espirituais, a referência obrigatória de toda experiência religiosa, fornece um ponto de partida para uma meditação que, por etapas, conduz à contemplação. Muitos autores do século XII, de Aelred de Rievaulx a santa Hildegarda, descreveram essa passagem da reflexão para a iluminação, segundo a sua experiência pessoal. A Palavra divina, segundo eles, age primeiramente no espírito como uma chama, cortando os laços que o unem à carne e ao pecado. Uma vez purificada a memória, a alma pode apoiar-se nas palavras e nas imagens do texto para tentar elevar-se ate o seu criador. Ao fim de uma série de etapas ascensionais, como que por uma escada, ela vence a distância infinita que a separa de Deus. As confissões de indignidade dão lugar progressivamente às manifestações de ternura. Enfim, no silêncio, a Palavra toma posse da alma e se faz carne: o homem da nascimento a Deus. Como diz são Bernardo: “Locutio Verbi, infusio doni”. É o mesmo Verbo que fala aos homens e se dá a cada um deles. Desses instantes de elevação, o espírito sai exaltado e maravilhado. Graças à Sagrada Escritura, o homem pode libertar-se dos seus próprios limites, pois nele o visível e o invisível se unem.
A Igreja Católica: Construtora da Civilização Ocidental 5 ep (O Sistema Universitário)
“A Igreja como oponente do conhecimento e do aprendizado”, dizem os opositores dela. Bem, então por que ela deu à luz o sistema universitário? Esta é outra pergunta proibida, que vamos examinar hoje em “A Igreja Católica: Construtora da Civilização”.
O usuário do You Tube, Kandungus editou e legendou mais um episódio da série da EWTNapresentada pelo Ph.D. Thomas E. Woods, membro sênior do Ludwig von Mises Institutee autor de livros que incluem dois bestsellers do New York Times (e LRC) “Meltdown: A Free-Market Look at Why the Stock Market Collapsed, the Economy Tanked, and Government Bailouts Will Make Things Worse” e “The Politically Incorrect Guide to American History”. Seu livro How the Catholic Church Built Western Civilization foi lançado em português pela Editora Quadrante sob o título Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental.
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Fra Angelico (1387-1455) – Entombment
Tempera on wood, 1440, Alte Pinakothek, Munich
Deus
NATAL E fim de ano, Deus está no ar, em meio à fúria do consumo e das expectativas.
Mas antes de falar coisa séria, uma palavrinha: adoro a inércia do fim de ano. As pessoas ficam preguiçosas, sem pressa. Escorregam lentamente para a praia ou o campo, ou para a cidade que se esvazia. Época de sexo fácil e solidão em grandes quantidades. O que antes era eficácia e ambição perde a forma e vira imprecisão, sono, bebida e comida, horas a fio sem objetivo. Este colunista que vos fala está com o que a sabedoria popular chama de “uma gripe do cão”.
A cabeça pesando quilos, febre, tosse, espirros, enfim, com todas as vantagens que uma gripe nos dá: contemplação do teto e das paredes, noites mal dormidas, o direito honradamente adquirido de fazer nada e de demandar tudo da mulher apaixonada pelo doente. Um presente de Natal. Leia mais…
São Bernardo de Claraval, Lourdes
O Homem Medieval à Procura de Deus
3. Uma conquista: a vida interior
À medida que a piedade se individualizava e que a religião se fazia mais pessoal, a vida do espírito deixava de ser 0 privilégio dos monges. Em uma sociedade que começava a se liberar das coações exteriores e a por um freio na violência cega, um número crescente de clérigos e de leigos adquiriram esse mínimo de tempo e de distanciamento em relação ao instinto, que torna possível 0 recolhimento e a reflexão: “No interior do homem ocidental abre-se uma outra linha de frente pioneira, a consciência.” (4) Com certeza, não foi por acaso que essa tomada de consciência – em todo 0 sentido do termo – coincide com um certo arrefecimento das perspectivas escatológicas. Enquanto as massas perseveravam incansavelmente na expectativa do milênio e transferiam suas esperanças, frustradas pelo resultado medíocre das cruzadas, para sucessivos messias, os melhores espíritos redescobriam a verdade da máxima evangélica: “0 reino de Deus esta dentro de vós”. Uma mudança se operou no nível das mentalidades religiosas: 0 Julgamento Final figurava sempre entre as preocupações essenciais dos fiéis, mas perdeu 0 seu caráter de angustiante iminência. Logo, ele seria considerado apenas como “a sanção longínqua do julgamento da consciência no diálogo interior com 0 Cristo”. (5)
O caso Galileu… ele realmente prova que a Igreja era uma inimiga da ciência? O que realmente aconteceu no incidente de Galileu? Vamos examiná-lo hoje em “A Igreja Católica: Construtora da Civilização”.
O usuário do You Tube, Kandungus editou e legendou mais um episódio da série da EWTN apresentada pelo Ph.D. Thomas E. Woods, membro sênior do Ludwig von Mises Institute e autor de livros que incluem dois bestsellers do New York Times (e LRC) “Meltdown: A Free-Market Look at Why the Stock Market Collapsed, the Economy Tanked, and Government Bailouts Will Make Things Worse” e “The Politically Incorrect Guide to American History”. Seu livro How the Catholic Church Built Western Civilization foi lançado em português pela Editora Quadrante sob o título Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental.
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Leia também:
A condenação de Galileu (por Robson Nascimento)
Algumas coisas mais sobre Galileu (por Emerson Chenta)
Afinal, o que aconteceu com Galileu Galilei? (por Marcio Campos)
O que defendia Galileu? (por Rogério Sassonia)
Cosmologia Medieval e Aristóteles (por Luiz F. Alves)

O viajante sobre o mar de névoa, de Caspar David Friedrich, 1818. Que bela imagem para uma alegoria! Talvez nenhuma outra imagem poderia ser mais perfeita! De um lado o Luiz Fernando, este jovem solitário e frágil, que sabe que o futuro será tão esvanescente e enigmático quanto a majestosa névoa que o viajante contempla, se ele não manter a prudência, se em algum momento despir-se de sua alma e esquecer-se da reflexão constante, deixando que o mais insólito lhe surpreenda por ser-lhe inesperado, e que por momentos vários, abandone as suas efêmeras conclusões de jovem imaturo e torne-as belas lembranças atrás de si. A ambiguidade desta imagem é tamanha que, daqui a alguns anos eu posso usá-la para significar a contemplação de alguém que transcendeu determinada situação e hoje pode observá-la do topo da montanha mais alta, depois de um longo e hercúleo percurso. Ou ela representaria uma transição? Preciso continuar a subir, a elevar-me, a elevar-me...
Hoje é um dia interessante, estou entrando na obscuridade da vida adulta, completando dezoito anos. Não que a data em si signifique algo espetacular (não gosto de festas nem de dias festivos, sejam quais forem) ou represente alguma ruptura com minha vida pregressa (quer dizer, certamente representa ainda que eu não tenha muita consciência disto; um amigo até disse-me que já posso ser preso…). O que me parece certo é que o sol continuará a nascer como sempre pelos próximos dias. Sou mais adepto das permanências, e dificilmente noto uma mudança quando ela ocorre, vou levar algum tempo para entender este novo momento. Não estou muito assustado comparado à relutância que tive em aceitar meus dezessete anos (dias terríveis…). O sentimento que me acompanha é o de felicidade, inclusive pelas palavras amigas que recebi e evidentemente agradeço a todos (eu não seria insensível a este detalhe).
O tempo hoje está chuvoso, gosto disto. Esse clima me convida a recolher-me ainda mais satisfeito em meu quarto, por saber que, se por um lado é o meu lugar preferido no mundo todo, por outro, com o tempo assim não há outras opções mais interessantes mesmo, melhor é fechar-se, embora este dia me lembre que as responsabilidades não são mais as mesmas, convidando-me a uma abertura cada vez maior. Quero elevar-me, sem dúvida, mas sem esquecer do aviso daquele autor que escrevera que quem deseja isto continuamente deve esperar pela vertigem e quem que cai diz: ‘levante-me’. Quem levarei comigo?
Neste dia, o mais ambíguo de meus amigos é o silêncio; principalmente o do mundo, deste que me olha indiferente, com ares de desafio, como se eu tivesse que ganhá-lo. Não sei o que lhe responder, nem sei se me pergunta algo. As perguntas e respostas têm ficado cada vez mais intrincadas e tudo que sei me parece insuficiente. Eu posso querer parar, tenho o direito de ter medo, e até vivificar as mais insólitas nostalgias, e acreditar que os tempos antigos possuem a mesma inspiração e significado. O eterno retorno é uma idéia atraente, mas a singularidade da vida humana é maior, e é no fluir que eu devo estar atento. Muitas histórias ainda me esperam e a vida segue, nem boa nem má…
“…algumas coisas serão atiradas em ti, algumas coisas acontecerão. Não é coisa delicada viver. A uma longa viagem vieste, e é necessário que escorregues e que tropeces e que caias e que te canses e que exclames: “Ó Morte!”, isto é, é necessário que mintas. Num lugar deixarás para trás um companheiro; noutro sepultarás um; noutro ainda terás medo; deste modo, por entre ferimentos, é necessário atravessar esta difícil viagem. Deseja alguém morrer? Que seu espírito esteja preparado contra todas as coisas; que saiba por si mesmo que chegou onde estronda o trovão.” (Carta de Sêneca a Lucílio, CVII)
Os leitores deste blog provavelmente notaram que estou publicando textos sobre a religiosidade medieval. No entanto, cabe aqui algumas considerações sobre este estudo. Trata-se do quinto capítulo do livro “A Espiritualidade na Idade Média Ocidental, séc. VIII ao XIII” (La Spiritualité du Moyen Âge Occidental – VIII-XIII Siècle) do medievalista André Vauchez. Esse livro abrange somente alguns aspectos religiosos de um período específico, concedendo aos leigos e à religiosidade popular um amplo espaço, na realidade, pode-se dizer que um espaço central na obra. Os motivos de tais preferências são explicados pelo autor, como o de que seria difícil definir quando há a passagem da Antiguidade à Idade Média e, que a mudança de uma a outra forma de religiosidade na transição destes períodos teria sido tardia. Poderia destacar que,
para que se possa falar de vida espiritual, é necessário que exista previamente não só uma adesão formal a um corpo de doutrinas, mas também uma impregnação dos indivíduos e das sociedades pelas crenças religiosas que professam, o que só se pode efetuar com o tempo. Ora, na maior parte dos campos do Ocidente, excluindo-se a área mediterrânica, a conversão das populações à fé cristã só ficou concluída cerca dos anos de Setecentos. Foi ainda mais tardia em certas regiões da Germânia, onde o paganismo sobreviveu até à época de Carlos Magno. Na globalidade, só no século VIII o cristianismo se transformou na religião do Ocidente. (VAUCHEZ, André. A espiritualidade na Idade Média Ocidental; Séc. VIII a XIII. Trad.: Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. pp. 11-12)
O medievalista quis oferecer meios de entender a passagem de uma piedade mais ritualística do período carolíngio à outra mais mística da baixa Idade Média. É evidente que saltar a Patrística é um motivo bem contundente para que se leia este livro muito mais como um estudo introdutório do que uma obra completa sobre a religiosidade no medievo, porém, ele possui boas definições sobre a época que delimitou para estudo.
não é isso pensamos, e, pelo contrário, consideramos que entre os analfabetos, que constituíram a maioria dos fiéis entre o século VIII e o século XIII, houve quem tivesse tido uma concepção de Deus e mantido uma relação com o divino que bem merece o nome de espiritualidade. Assim, procuraremos colocar em evidência o impacto que a mensagem cristã pôde exercer sobre a maioria, de modo a fazer descer a história da espiritualidade dos altos cumes, nos quais ela tão longamente se instalou. (VAUCHEZ, André. A espiritualidade na Idade Média Ocidental; Séc. VIII a XIII. Trad.: Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. p. 13)
Os textos a que me refiro nesta postagem são: Peregrinações, relíquias e milagres; Arte e espiritualidade; A vida interior e Nas origens da mística ocidental, e correspondem ao capítulo “O homem medieval à procura de Deus”, do livro anteriormente citado.
Ps: resposta à este comentário.

